29 maio 2012

Parto normal, com ou sem dor?

por Ana Cris Duarte
DAS DORES
Eu acho que qualquer conversa sobre parto (e qualquer realidade), deveria começar com: “Você tem direito a analgesia de parto quanto e quando você solicitar. Tudo bem? Tranquila? AgoParto2 corra vamos falar sobre dor do parto?”
Nossa sociedade e a maioria das sociedades ocidentais fazem grande alarde sobre a dor do parto, insistindo que é praticamente insuportável. Existem até comparações feitas por anestesistas (via de regra homens), dizendo que a dor do parto se assemelha à dor de arrancar um dedo. Acho incrível que alguém possa comparar dores, para começar. A não ser que a pessoa tenha parido E tenha tido um dedo arrancado, essa comparação é, antes de tudo, uma piada de mal gosto, tanto do ponto de vista das mulheres quanto dos mutilados sem um dedo.
A dor do parto se assemelha à dor de dar à luz e a nenhuma outra. Ela pode ser insuportável para umas e perfeitamente manejável para outras. Não tem como saber antes de experimentar a sensação. Mas antes que você enlouqueça e contrate um anestesista no dia em que seu noivo te peça em casamento, vão aqui algumas dicas para tranquilizar seu coração:

1. As contrações começam fracas e curtas, com a sensação de uma cólica em geral leve, que começa fraca, tem um pico mais forte e fica fraca novamente, até desaparecer. Isso dura por volta de 30 segundos no início. Elas vão ficando mais fortes, mais longas e mais frequentes à medida que o parto evolui. O máximo a que elas chegarão será numa frequência de uma a cada três ou quatro minutos. Vão durar até 60 a 90 segundos. E nos intervalos você poderá respirar, descansar e até dormir.

2. As dores que em geral conhecemos são as dores negativas de algo que não está certo, um dente inflamado, um ligamento distendido, uma pancada, uma queimadura. A dor do parto é diferente de todas as outras porque ela vai te trazer um bebê, seu filho. A sensação dessa dor é portanto positiva, a não ser que chege a níveis muito fortes da metade para o fim.

3. Embora em geral estejamos acostumados a ligar o termo “dor” com “sofrimento”, a verdade é que nem toda dor é sofrida. Quando fazemos um exercício mais puxado e no dia seguinte sentimos dores musculares do esforço, não tomamos medicamentos nem nos sentimos sofredoras, pelo contrário, enchemo-nos de orgulho. A dor do parto também pode ser vivenciada da mesma forma.

4. A parte mais intensa é a da dilatação. Quando o bebê começa a descer pelo canal de parto, a tal “passagem”, em geral a dor é substituída por uma incrível sensação de pressão e uma vontade incontrolável de fazer força. Para a maioria das mulheres, o nascimento em si, a passagem do bebê, é bem mais fácil de lidar do que a fase da dilatação em si.

5. Para as mulheres que desejam um parto sem dor, a analgesia peridural é uma opção disponível a partir do momento em que a mulher deseje não sentir mais dor. Quanto mais tarde se usa a anestesia, menos ela atrapalha o parto. Mas lembre-se que é melhor um parto atrapalhado por analgesia do que uma cesariana porque você acha que não vai dar conta. No entanto a analgesia de parto é longa, o anestesista precisa estar presente o tempo todo, o que faz com que em algumas cidades e em alguns hospitais ela não seja uma opção para as mulheres. Quanto melhor a equipe de anestesistas, melhor a disponibilidade para quem precisa do recurso.

6. Não existe muito cedo nem muito tarde para se solicitar analgesia de parto. O procedimento leva cerca de dez a quinze minutos para ser feito e pode durar até muitas horas, de acordo com a conveniência da parturiente.

7. A anestesia de parto não passa para o bebê, ela fica restrita ao espaço da coluna vertebral onde é aplicada. No entanto ela pode provocar vasodilatação, baixa pressão arterial e reflexos desses problemas na placenta e na oxigenação do bebê. Portanto ela não é isenta de riscos. No entanto a anestesia da cesariana é ainda mais forte e também pode dar os mesmos problemas, com frequência ainda mais elevada, dada a quantidade maior de anestésicos que é aplicada.

8. Antes do recurso da analgesia, existe outros bastante eficientes que ajudam a diminuir a sensação de dor, como as massagens localizadas, bolsas de água quente, banhos de chuveiro e de imersão em água à temperatura do corpo. Uma doula experiente também pode ser de grande ajuda, oferecendo dicas de conforto, massagens eficazes e palavras de apoio que são como bálsamo para uma mulher determinada a um parto natural.

9. As equipes que trabalham com parto natural e analgesia se necessário relatam taxas de cesariana de 10 a 15%, e taxas de analegesia nos partos normais entre 5 e 30%. Em outras palavras, mesmo que as drogas estejam disponíveis, a maioria das mulheres consegue lidar bem com as contrações do parto e acabam não necessitando do
recurso.

10. As sensações naturais do parto provocam a produção de uma incrível cascata de “hormônios do bem”, que afetam igualmente a mãe e o bebê. Abrir mão desse coquetel de hormônios é perder a oportunidade de uma experiência transcendental incrível, inédita e só replicável no próximo parto. Não deixe de conhecer essa sensação e de testar os seus limites. Experimente, conheça seus recursos e acima de tudo, escolha uma boa equipe para te auxiliar nesse processo.

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